Como eu escrevo

Hoje em dia eu preciso escrever depois de responder uma série de perguntas pra mim mesmo. O primeiro esboço de um texto meu é, geralmente, essas perguntas e suas respostas:

  1. O que? Sobre o que eu quero escrever.
  2. Como? Como o que eu quero escrever acontece.
  3. Onde? E quando? Contextualização — o que eu quero escrever faz parte de algo maior? Um movimento? O trabalho de um artista como um todo? É reflexo de seu tempo? (Sempre é).
  4. Por que? Essa é difícil. Geralmente eu acabo me confundindo e escrevo sobre o porquê eu quero escrever algo, mas não é isso. A pergunta é por que aconteceu o que eu quero escrever.

Eu sou muito prolixo, mas eu gosto de um tipo de escrita mais direta e minimalista. Minha referência favorita são os textos da minha amiga Jéssica Brandelero, que tem um tom imediato e casual na forma como escreve sobre o dia-a-dia de seus personagens e de seus sentimentos. Eu quero muito conseguir capturar esse estilo um dia.

Meu maior obstáculo é na quarta pergunta. Eu já me eduquei a ser bem imediato na estrutura do que eu quero escrever — o objeto do texto —, do como — a análise “dura” desse objeto — e arranho um bocado na contextualização. Mas a motivação é mais complicada. Eu confundo intenções ou faço suposições muito específicas sobre essas intenções. Quando eu quero falar de um filme, por exemplo, eu acabo escrevendo sobre o que eu acho que tal cena significa, ao invés de deixar essa parte para o leitor da análise. Ao fazer isso, eu reduzo a interpretação de um filme, e a minha análise sobre ele fica menos interessante quando o efeito devia ser o contrário — eu deveria tentar enriquecer a leitura dele.

É um processo difícil. Eu gosto de ler e reler o Contra a Interpretação da Susan Sontag pra isso: quando eu vejo uma árvore em um filme, eu escrevo sobre a árvore, sobre o que ela agrega ao filme — e não devo ficar tentando supor o que o diretor quer que aquela árvore signifique. Esse é o trabalho que fazemos na hora de assistir a árvore.

Eu tô tentando melhorar nesse sentido. Uma das formas é tentar escrever mais. Não só prática, mas publicar de uma vez. Como eu me perco justamente nessa última parte, quanto menos tempo eu passar nela, melhor minha relação com o texto final. Alguns dos meus textos favoritos no Pão com Mortadela nos últimos anos1 tiveram muito pouco tempo nessa área de suposição. Eles relatam muito mais um momento meu encarando o assunto do que minha interpretação sobre o assunto em si.

Um dos motivos de eu ter mudado a estrutura do meu site pessoal, removido o blog e transformado em uma wiki, é justamente por causa dessa mudança no meu método de pesquisa e de escrita. Eu preciso registrar, de alguma forma, o processo do meu pensamento e como ele vai mudando conforme a pesquisa segue. Mas eu decidi parar de ver o texto de destino — o post de blog, ou o artigo acadêmico, ou o que for — como o que importa nesse processo.

A pesquisa é a parte mais divertida de todo esse processo, e muitas vezes ela não resulta em nenhum “texto final”, e sim numa série de anotações e manuscritos que vão evoluindo com o tempo. Antes, eu mantinha eles por tudo, seja nas Notas do meu celular, em arquivos de texto no computador, ou na minha caderneta. Agora eu decidi centralizar eles naquilo que eu sei melhor: no hipertexto, linkando e registrando e salvando para editar depois. Acho que vai ser um processo mais bacana.

  1. Dois bons exemplos de textos em que eu não reduzo a interpretação da intenção ou significado de algo são esse texto sobre o fim de Fleabag e esse sobre o desespero em The Leftovers

Aqui está um mapa de todos os textos nesse site.