Os melhores de 2017

Foto de duas pessoas sentadas em um metrô à noite.

Tava pensando em como começar esse blog ou como me apresentar. Eu não gosto de me apresentar, então eu achei que começar com o meu ranking anual de coisas que eu gostei no ano passado ia ser um bom ponto de partida pros dois — pro blog e pro ano, também.

2017 foi um ano estranho. Ele foi bom — eu me formei, fiz TCC que fiquei orgulhoso, fiz alguns sites muito legais, vi um monte de filme bacana, teve Twin Peaks e The Leftovers, e teve o melhor Zelda de todos. Foi um ano ruim, também. Eu passei a maior parte do ano me sentindo muito mal e inconformado. Eu acho que 2018 vai ser melhor. Tomara.

Meus rankings de retrospectiva funcionam assim: eu escolho cinco coisas que eu adorei esse ano — um filme, uma música, uma série, um jogo e um link (geralmente eu escolho um livro, mas eu li muito pouco em 2017) — e daí eu ordeno elas pelo que eu mais gostei, acompanhado com outras coisas que eu considerei muito boas também. Eu fiz isso no meu blog anterior, o Pão com Mortadela, em 2015 e em 2016, e sempre gosto de revisitar esse tipo de coisa. Eu faço uma lista só de filmes no meu antigo blog de filmes, que eu escrevia antes de entrar na faculdade de cinema.


5, o melhor álbum

I see you, por The xx.

Eu ouvi I see you lá em janeiro, e achei o álbum incrível: uma mistura do que eu amava ouvir no meu ensino médio, com uma maturidade e vontade de expandir um som que a banda sabe fazer. Com o passar dos meses, e com o lançamento de outros álbuns incríveis, eu sempre voltava pra ouvir I see you. É atmosférico, é dançante, é preciso. É o The xx que eu tanto amei em Basic Space e Angels, mas é melhor. Não há batida prevista, não há som fora do lugar. É exatamente aquilo que eu esperava de um álbum do xx, e é melhor do que tudo o que eu podia imaginar deles. Me fez lembrar porque eu me apaixonei por Intro em 2009, e me mostrou tudo o mais que eles podem ser. É incrível, e a melhor coisa que eu ouvi esse ano.

Os melhores álbuns do ano: American Dream (por LCD Soundsystem). DAMN. (por Kendrick Lamar). Everything Now (por Arcade Fire). Heresia (por Djonga). Melodrama (por Lorde). Pajubá (por Linn da Quebrada).


S-Town, por Serial & This American Life.

Serial, o fascinante e revolucionário podcast, explora o porquê de como a cultura americana aborda certas histórias, e o que a postura perante essas histórias diz sobre os Estados Unidos. S-Town procura levar essa exploração a um nível pessoal: sobre as histórias que um homem no profundo interior do Alabama conta para Brian Reed, o narrador do podcast. O que essas histórias, talvez verdadeiras, talvez falsas, contam sobre esse misterioso horologista, e o que elas significam para Reed. É uma profunda, desconfortável e impiedosa jornada pela mente de John B. McLemore, que talvez seja tão íntima que não devesse existir, e é O Coração É um Caçador Solitário em forma de podcast — não vai ter melhor por aí.

Os melhores links: The Next Picture Show (por Filmspotting e Panoply). Terrible, thanks for asking (por APM). Missing Richard Simmons (por Topic).


3, o melhor filme

Docinho da América, dirigido por Andrea Arnold.

Eu me preparei pra assistir Docinho da América (afinal tem quase três horas de duração). Eu desliguei todas as luzes, coloquei o volume no +/-0 (o ideal aqui em casa). Eu esperei de madrugada, pra ter bastante silêncio. Eu respirei fundo e dei play. A Andrea Arnold não decepcionou: logo na primeira cena, o filme me segurou como um gancho no estômago, e não me largou por as quase três horas restantes.

Docinho da América talvez seja um daqueles filmes que eu só veja uma vez, de tão devastadora que é a experiência. Arnold revisita uma América que só vi em Paris, Texas antes: aquele país que todos sonham com, mas que nunca existiu — mas que você consegue ver os vestígios dos sonhos em cada canto. Com a janela fechada de Docinho da América, pelas costas de Star, nós vemos essa América perdida no meio dos Estados Unidos e, na companhia da talvez melhor atuação do ano, viver os dias quentes, empolgantes e tristes nesse lugar que não os permite sonhar porque os sonhos são para os outros.

Os melhores filmes: Certas Mulheres (dirigido por Kelly Reichardt). De canção em canção (dirigido por Terrence Malick). Mulheres do Século 20 (dirigido por Mike Mills). Toni Erdmann (dirigido por Maren Ade). Z — A Cidade Perdida (dirigido por James Gray).


2, o melhor jogo

The Legend of Zelda: Breath of the Wild, Nintendo.

Uma das coisas que eu mais gostei de fazer esse ano foi ler os porquês de The Legend of Zelda: Breath of the Wild, ser único e revolucionário. Te garanto: muito já foi escrito — ele muda o relacionamento do jogador com o mapa aberto; ele é o primeiro jogo de mundo aberto onde o mundo importa; o melhor simulador de subir árvores; ou simplesmente porque ele muda aquilo que acostumamos a ver em um Zelda (e, por extensão, a maioria dos jogos de ação-aventura por aí).

Já eu escrevi que ele é o melhor Zelda, e o melhor jogo que a Nintendo já fez, e eu continuo acreditando nisso. Por mais que ela tenha feito outros jogos que definiram o 3D, como Super Mario 64 ou o próprio Ocarina of Time, Breath of the Wild é o primeiro jogo onde eu vejo a Nintendo responder os seus próprios limites (e, de quebra, colocar o seu novo videogame nesse novo paradigma). É uma resposta da Nintendo para a evolução dos jogos nos últimos dez anos que ela pareceu estar adormecida, e um belo terremoto em como o novo padrão de game design estava sendo usado. Breath of the Wild leva os jogos para o futuro, e eu mal posso esperar os outros chegarem lá.

Os melhores jogos: Everything (David OReilly). Gorogoa (Buried Signal). Horizon Zero Dawn (Guerilla Games). Nier: Automata (PlatinumGames). Super Mario Odyssey (Nintendo).


1, a melhor série

The Leftovers, terceira temporada (HBO).

“Eu queria que todos estivéssemos prontos”, entoa a canção que abre a última, e melhor, temporada de The Leftovers. Eu queria, também. Depois de assistir a mais inventiva e fascinante série de 2017, eu não conseguia falar. Não por dor, como alguns dos personagens ficaram após a Partida. Eu tive aquele silêncio estranho, um tanto alegre, que acontece quando tu sente algo muito forte, que parece que uma parte do teu corpo foi tirada de ti. O vazio que fica no lugar é estranho e misterioso, e também reconfortante. Conveniente para uma série que é capaz de rir do fanatismo de seus personagens ao mesmo tempo que explora, com muita precisão, a dor de saber que o mundo não é o nosso lar como a gente pensa ser.

The Leftovers é isso: estranho e misterioso. É aquele tipo de série que te permite cavar a cada segundo, e ele sempre vai te entregar algo de novo, mas também sempre vai te dizer que isso não é o suficiente. É uma série que me ensinou a esperar por nada, e se satisfazer com tudo. Em The Leftovers a fé — em qualquer coisa: em xamãs, em pássaros dentro de caixas, no leão que devora a face de Deus — é capaz de torcer a realidade. Esse mundo que ficou, torcido e irreconhecível, é aleatório e mortal. Pelo menos nós ainda estamos aqui, e temos um ao outro. Em The Leftovers, a verdade não existe em uma pessoa, mas nas histórias que existem entre elas. Essas, sim, são capazes de torcer a verdade. É a melhor série que eu já vi.

As melhores séries: Atlanta, primeira temporada (FX). Crazy Ex-Girlfriend, segunda temporada (CW). The Deuce, primeira temporada (HBO). Halt & Catch Fire, quarta temporada (AMC). Insecure, segunda temporada (HBO). Legion, primeira temporada (FX). Twin Peaks, terceira temporada (Showtime).

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