10 anos de Portal

Câmara de testes 1, Portal

Eu lembro que em 2007 eu comprei uma placa de vídeo depois de meses economizando qualquer dinheiro que eu encontrava. Ela não era boa (era uma GeForce 8600), mas era mais do que suficiente pra rodar Spore no ano seguinte — e eu basicamente comprei ela pra jogar Spore.

Quando eu fui comprar a placa de vídeo na Digimer eu queria comprar um jogo pra testar ela. Eu sabia que Call of Duty era pedir demais (e eu sempre fui muito ruim com FPS), então eu comprei The Orange Box, porque era barado (R$ 99, o padrão pra um jogo AAA na época) e a caixa dizia vir com cinco jogos. Quando eu vi, no cantinho da caixa, que tava escrito Inclui Half-Life 2 eu lembrei de outra coisa.

No meu aniversário uns anos antes (eu acho que era por 2002 ou 2003) a avó de um primo me deu uma daquelas revistas que vinham com a demo de um jogo num CD. O jogo era Turok 2, uma bobagem que eu nunca aprendi a jogar porque naquela época eu tinha muita dificuldade de mexer com o mouse com a mão direita (eu sou canhoto). Coisas que eu lembro daquela revista: o papelão que segurava o pacote da revista e deixava o CD a mostra tinha uma bolinha de plástico pra segurar o CD que eu adorava apertar, porque ela afundava e voltava pro lugar bem devagar; e uma revistinha promocional da Sierra sobre um jogo “revolucionário” que tava pra ser lançado nos próximos meses.

Eu tenho o logo da Sierra marcado na minha mente porque, quando o meu pai comprou o primeiro computador dele, um tio me deu um disco com vários jogos que foram os primeiros jogos que eu joguei. Eu ia demorar uns quase vinte anos pra saber que aqueles jogos se chamavam point-and-click adventures, mas na época eu gostava do som que saía do computador quando o logo da Sierra aparecia na tela.

O primeiro jogo que eu joguei na minha vida era The Lost Mind of Dr. Brain. Hoje em dia dá pra jogar ele no teu navegador.

O que eu mais lembro naquela revistinha que vinha com o Turok 2 era a imagem de uma cidade. Ela era linda. Eu lembro de ter comentado com meu pai, inclusive: olha como os postes de luz têm fios. Olha a sombra, como ela parece uma sombra.

"A Cidade 17"

Quando eu vi o The Orange Box na prateleira, então, eu lembrei de tudo isso. Eu finalmente ia poder jogar aquele jogo das imagens bonitas da revista. Os três anos que separam ele da minha placa de vídeo nem foram contabilizados na hora de aumentar a empolgação.

Eu era muito ruim em Half-Life 2, por vários motivos. Em 2007 eu já tinha um bom domínio do mouse, é claro, mas eu nunca fui muito de jogo de tiro. Envolve pontaria e velocidade, coisa que eu não tenho nem na vida real. Eu sou acostumado a jogar The Sims e SimCity, oras. Jogos onde eu tenho tempo pra fazer decisões porque se eu fizer uma decisão ruim ela vai ferrar com o meu jogo.

Em 2007 a gente ainda tinha internet discada aqui em casa (curiosidade: a gente só deixou de ter internet discada em 2012), então pra instalar Half-Life 2 meu pai me levou pro trabalho dele, onde eu podia levar o gabinete do computador e conectar nos monitores que não eram usados e baixar o jogo. Eu não queria atrapalhar muito (afinal, é um gabinete), então só baixei Half-Life 2 e guardei o computador no carro. Duas semanas depois, decepcionado com minha performance no jogo, eu queria instalar Portal, porque a descrição traseira da caixinha era engraçada. Eu não queria atrapalhar, e meu pai não reclamou, mas eu aposto que eu incomodei muito mais levando o gabinete pro trabalho dele dois dias ao invés de um só e instalar os cinco jogos de uma vez.

Half-Life 2 não é um jogo ruim — eu considero ele o melhor jogo que eu já joguei, inclusive —, mas quem me ensinou a jogar FPS foi Portal. É divertido pra caramba, a GLaDOS é um dos meus personagens favoritos de sempre, e caramba se aquele jogo vai pra lugares que eu não esperava. O momento que tu “sai” da trilha que o jogo parece querer que tu siga é fantástico, e um dos momentos mais marcantes que eu já tive em um jogo.

Portal me lembrava de Dr. Brain, porque também é sobre experimentos em um laboratório, e lembrava o Arthur com todas as obrigações da sétima série como era divertido não ter nada pra fazer no pré. Hoje eu olho pra Portal, há dez anos, anos depois de ter me apaixonado por Portal 2 também, e lembro de como era divertido ficar descobrindo o que é jogar videogame, porque eu jogava de tudo tentando encontrar aquele jogo.

Aquele jogo não era Portal, era Half-Life 2, mas eu só aprendi a amar Half-Life 2 por causa de Portal, que eu só descobri porque eu amava a sombra na imagem de Half-Life 2 na 3D Gamer de muitos anos atrás. Atrás da caixinha do The Orange Box tem uma citação da IGN onde se lê “A melhor oferta na história dos videogames”. Na minha história dos videogames, ela com certeza foi.

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